Leve leve

Um Paraíso no Atlântico
Para quem sai do deserto do Kuwait, qualquer país com relevo e verde parece o paraíso. No entanto, São Tomé e Príncipe é verdadeiramente especial. O arquipélago oferece paisagens deslumbrantes à beira-mar e no interior, fruta em abundância e uma gente muito simpática. O peixe fresco é acabado de apanhar e a vida selvagem faz-se notar no ar, em terra e no mar. A água do mar é quente e a temperatura exterior convida a passear.

Claro que nem tudo é perfeito. Há mosquitos, humidade, buracos nas estradas, águas impróprias para consumo e alguma lama devido às chuvas. Contudo, estes detalhes não estragam a experiência. Qual seria a piada de chegar a um resort isolado sem ter algumas aventuras para contar?

A Tranquilidade da Ilha do Príncipe
O Príncipe é uma ilha super tranquila, fiel ao lema leve-leve. O povo é sereno, hospitaleiro e muito limpo, demonstrando uma preocupação genuína com a reciclagem.

Ter uma viatura 4×4 é imprescindível em qualquer uma das ilhas. No Príncipe, os acessos às praias tornam-se complicados quando chove e a lama acumula-se, até porque a maior rede viária é em terra batida. Eu tinha lido que havia poucos sítios para comer. A verdade é que, para quem fica poucos dias, a oferta chega perfeitamente para vários tipos de carteira. A comida é sempre muito gostosa e vem acompanhada por um picante delicioso.

Para ver, temos praias, trilhos, roças e plantações de cacau e café. Podemos observar a vida selvagem ou simplesmente relaxar e inspirar o ar puro.

O Ilhéu das Rolas e o Marco do Equador
No Ilhéu das Rolas encontramos o famoso marco do Equador. O ponto zero oferece uma vista fantástica sobre a ilha de São Tomé. A comunidade local guia os visitantes com todo o gosto e tenta vender artesanato dos amigos artistas.

As águas cristalinas e azul-turquesa estão cheias de vida e abrigam várias espécies de tartarugas. Infelizmente, não tive tempo de confirmar tudo com os meus próprios olhos, mas fica a promessa para uma próxima vez.

Descobrir a Ilha de São Tomé
São Tomé é o ponto de chegada e de partida, marcado por emoções e descobertas. Sinto que ficou muito por ver e que hei de voltar.

Antes de mais, fica o aviso: se alguém vos disser que andar sem cinto de segurança é seguro, acreditem apenas até serem multados. Considerem-se avisados!

A costa noroeste, desde a Lagoa Azul até Santa Catarina, parece saída de um filme de James Bond. A estrada corre quase ao nível do mar, sempre rente à costa, com o verde de um lado e o azul do outro. É absolutamente lindo.

As comunidades são maiores e recebem mais turismo do que no Príncipe. Ver um homem branco é sinónimo de doce, brinquedo ou dinheiro para as crianças, mas nada que cause desconforto. Pelo contrário, muitas vezes resultam em grandes amizades.

Roças, Fruta e Gastronomia
O interior da ilha guarda plantações de café e cacau que alimentavam as antigas roças. Muitas estão degradadas, mas algumas recuperaram-se para funcionar como guest houses ou para secar o café à moda antiga.

A fruta está em todo o lado e vale a pena provar todas as variedades. Comi jaca, cajamanga, carambola, sapé-sapé, manga, papaia, mamão, pitanga, goiaba e vários tipos de banana.

A comida local obriga a repetir o prato. Destaco o peixe fumado, o andala, o atum grelhado no ponto e o polvo guisado. Tudo isto acompanhado por banana frita, legumes e arroz. A bebida nacional é a inconfundível cerveja Rosema.

Rumo ao Sul e ao Pico Cão Grande
Em direcção ao sul, esperei ansiosamente pelo Pico Cão Grande. O agulhão enorme e majestoso aparece de repente no fundo da estrada, em plena plantação de palmas. É uma visão espetacular. Nem consigo imaginar quem tem coragem de escalar aquilo.

Depois do Pico Cão Grande começa o verdadeiro teste à viatura. São buracos, pedras e gravilha até ao fim da linha, em locais como Gembu, Inhame ou Jalé. Chegar lá exige um carro preparado. Contudo, ninguém quer voltar para trás. O melhor é ficar num bungalow, desfrutar das praias desertas e ouvir o silêncio. À noite, vale a pena tentar ver as tartarugas a desovar ou ajudar a libertar as recém-nascidas.

Um Povo Fascinante
Na hora de fazer as malas, decidi dar a maior parte da roupa a quem mais precisava. Percebi também que cadernos, lápis e material de primeiros socorros fazem muita falta às escolas locais. Se visitarem a ilha, levem um pouco destes materiais.

A simpatia das pessoas fascina qualquer visitante. Há sempre um “bom dia” acompanhado por um sorriso ou um aceno de mão. Foi uma viagem incrível que permitiu absorver a verdadeira realidade e cultura local. O lema leve-leve resume tudo na perfeição.