Turista em Marrocos

Marrocos! Marrocos, turisticamente falando, é um país do caraças, ora vejamos, tem o Toubkal, a montanha mais alta do Norte de África e do mundo árabe, tem o deserto do Sahara, o maior deserto do mundo, banhado a ocidente pelo oceano Atlântico e a Norte pelo mar Mediterrâneo. Tem deserto dunar (aquele que imaginamos sempre), paisagem desértica, oásis, montanhas, desfiladeiros, cidades de “terracota”, vilas piscatórias, paraísos de surf e kitesurf, cidades modernas, cidades não tão modernas e povos nómadas multilingues.

Não é verdade que a primeira impressão é a que fica, as opiniões mudam (tudo muda), o nosso olhar sobre o mundo ajusta-se à realidade e quanto mais tempo passamos num sítio melhor o conseguimos sentir. No meu caso, felizmente, as coisas mudaram para melhor, como vos contarei no próximo capítulo, para já sai uma espécie de relatório turístico para as centenas de amigos que estão cá, que pensam vir e para os que ainda não sabem que vêm!

À primeira vista, e para muita gente é o primeiro contacto com o mundo muçulmano, algumas mulheres vão ficar de pé atrás, mas, não se preocupem, Marrocos é dos países mais seguros para turistas (não tivessem eles polícias a cada esquina e no meio de qualquer rotunda com a máquina em punho para nos f*der 200MAD). Além disso, o Rei (sim, é uma monarquia parlamentar constitucional) deu ordens para serem brandos com os turistas, mas também não se ponham a fazer m3rda, principalmente, parem nos STOP 😉

A moeda aqui é o MAD – Morrocan Dinnar e 1 € vale cerca de 10 MAD, fácil para fazer contas de cabeça sem pensar muito. Como já disse noutro texto, o custo de vida é relativamente barato para europeus, o mais caro mesmo é o álcool (que não é proibido). Penso que o principal produto exportado é o haxixe (desconfio que os números não devem aparecer nos relatórios do país) 😉 preparem-se para ser abordados na rua a perguntar se querem comprar. A principal zona de produção é a minha zona, o Norte, as montanhas do Riff que foi precisamente por onde comecei a minha exploração turística do país.

O primeiro local que conheci fora de Al Hoceima / Nador foi a famosa cidade azul, Chefchauen, altamente instagramável (como dizem os jovens de hoje em dia)! Vale mesmo uma visita com pernoita, idealmente arranjar um alojamento no limite da Medina (medina é a zona antiga da cidade que normalmente tem uma muralha a toda a volta), recomendo os 2 onde estive, Dar Syraya e Hotel Pedro com estacionamento à porta e entrada directa para a medina. Explorar aquelas ruas azuis, encontrar lá no meio a padaria com pão a sair forno, beber uns sumos frescos na zona das lavadeiras, subir à mesquita branca para ver o por do sol, ir à loja dos sabonetes La Botica de la Abuela Aladin mas subir ao primeiro andar, lanchar ou jantar no terraço do Aladin. Para quem quiser, tentar ir visitar uma quinta onde se produz o haxixe, que para eles é uma actividade tão normal como apanhar azeitonas, e provavelmente rende mais 😉

Ali perto de Chefchaouen há um sítio muito agradável para fazer trilhos e com água, que no fim tem uma cascata grande, chama-se cascata de Akchour, ao longo do caminho tem vários sítios a fazer chá (claro), tajines, sumos…

Um dos sítios onde já fui várias vezes, por ser o que mais me convém para apanhar o avião para Lisboa, é Casablanca! Muitos dizem que Casablanca não tem nada, mas eu digo que Casa (como todos os marroquinos dizem), tem tudo!

Ah, preciso de um parafuso inox, Casa, um tubo de pvc PN16, Casa, uma placa de acrílico, Casa, óleo de sésamo torrado, Casa! Como podem perceber, Casa tem tudo! Efectivamente, Casablanca é o centro nevrálgico industrial e comercial de Marrocos, mas tem também uma Corniche (avenida marginal) gigante com aparelhos desportivos de rua para fazer exercício, praias largas e grandes, surf, a maior mesquita de Marrocos, um centro comercial com um aquário lá dentro (Morocco Mall), bares com música ao vivo, discotecas, restaurantes muito bons.

Se não tiverem muito tempo, para comer, recomendo o La Sqala na onda tradicional ou o Glez e o Gare aux Gorilles numa onda mais trendy e muito boa.

A outra cidade mais visitada é Marraquexe e desconfio que por mais vezes que lá vá, vou sempre ver algo novo e continuar com a sensação que devia levantar um contentor para trazer as 30.000 coisa que lá têm. Quem por lá passou sabe a que me refiro, quem não passou, há-de passar um dia e ficará a perceber. O artesanato não é Made in China. OK, há muita lojinha com as mesmas coisas, mas não lhe tira o facto de serem feitas no país e serem lindas! Arte, também se respira muita arte!

Para quem procura dicas e está circunscrito a Marraquexe, o que tenho sugerido é escolher meia dúzia de coisas para ver e entre um sítio e outro “perderem-se” pelas ruas da medina e ir descobrindo os recantos.

O que já vi, gostei e recomendo são os Jardins Secretos, o Museu e Bacha Café (atenção que para ir ao café vão-vos dizer que são 3h de espera, mas que podem ver o museu enquanto esperam, o meu conselho é ir directo ao café, deixar o nome em lista de espera e visitar o museu para fazer tempo), as tanoarias do couro (intenso para o nariz e pessoas sensíveis), o Museu YSL & Jardins Majorelle. Faltam-me ainda os palácios, mas dizem que são giros.

Quanto a comidinha, não há vez nenhuma que não vá comer os caracóis na praça Jmaa El-Fna, já faz parte da minha tradição (pena não terem cerveja e torradinhas). As tanjias (não é tajine) de borrego no Chez Lamine Hadj Mustapha, o Terrace des Épices para almoçar em modo fim de férias ou o Cabana Rooftop naquelas noites quentes em que se sente o abraço do ar. O Café Arábe também tem cocktails, mesmo em frente ao Majorelle 😉 Ahhh os sumos, sumos de fruta, laranja, manga, banana, abacate e até pepino. Se for altura de romãs, não hesitem!

Se tiverem vontade e tempo de explorar fora de Marraquexe, podem sempre ir ao deserto (não dunar) de Agafay andar de dromedário ou moto quatro ou ver as cascatas e desfiladeiros da cordilheira do Atlas, são paisagens diferentes que vale a pena ver.

Aqui na zona do Riff já subi a montanha mais alta, o Jbel Tidghine, com 2456m, ligeiramente mais alto do que o nosso Pico, faz-se bem e é muito agradável, no topo tem um senhor e o seu burrinho, que no fim de semana sobe bem cedo para fazer uns chazinhos e uma sopinha para matar o frio das mãos e da alma.

No parque Nacional de Al Hoceima desci os 700 degraus de Taoussart e percorri desfiladeiros de ribeiras torrenciais que terminam em praias isoladas de águas cristalinas e muito sossegadas, onde se comem umas belas lapas cruas e claro também tem um senhor a fazer uns chazinhos nalguns dos sítios.

Recentemente fiz-me à estrada para conhecer um pouco mais do Sul do país, voei para Marraquexe e aluguei um carro lá, Marraquexe directo para Essaouira, onde organizam um festival de músicas do mundo, o Gnaoua, este ano de 19 a 21 de Junho e que é também um dos hotspots de kite e windsurf.  Desafio-vos a descobrir as 5 Quinas na antiga Mazagão!

De Essaouira para Sidi Kaouki, uma aldeola, um refúgio de surfistas, boa onda e boas ondas, “eat, sleep, surf, repeat”. Se precisarem de sítio para ficar apitem.

Entre Sidi Kaouki e Imsouen, parece o Alentejo e o Algarve mas em vez de sobreiros tem as argânias, que dão o fruto argão, com montes de cooperativas ao longo da estrada, muitas delas femininas. Ao longo do caminho pode-se aprender com se processa o fruto e comprar o óleo de argão e também mel maioritariamente de argão. Provavelmente vão ver pastores com rebanho de cabras pretas empoleiradas nas árvores, são as melhores apanhadoras de argão uma vez que quando andam ali entre ramos a comer os frutos vão fazendo cair o restante, cujos caroços são depois recolhidos, partidos, descascados e moídos para produzir o óleo, com a pasta que sobra fazem sabão para usar nos hamam (banhos marroquinos neste caso).

Imsouen é mais uma pequena aldeia de surfistas e good vibe, a paisagem vale o desvio. Depois, a simpatia das pessoas, a descontração e a sensação de que o tempo abrandou fazem com que nos sintamos em casa, mas principalmente longe das preocupações do dia-a-dia.

Taghazout tem a onda mais famosa de Marrocos e é onde costumam organizar os campeonatos de bodyboard e surf. De forma geral, toda a costa Atlântica é boa para surf, contrário aqui da minha zona, apesar de ter ido baptizar a minha nova menina dos olhos aqui mesmo em Hoceima. Infelizmente, Taghazout está a transformar-se em resorts de luxo, tal como estão a fazer em Melides e noutros locais. A pressão urbanística e turística vai continuar a prevalecer à protecção e preservação ambiental.

Felizmente, uma das coisas boas que Marrocos tem, são as pessoas, descobri um casal 5 estrelas em que ela é instrutora de surf e ele faz tours. Como não estava bom para surfar fomos fazer um tour no Paradise Valley que é tipo Cascata de Arkchour mas numa versão serra algarvia, terreno mais seco, terra vermelha e também com água a correr. Demos uns belos mergulhos, tivemos pequenos peixes a limpar as peles dos pés e no fim uma bela tajine, encomendada quando começámos o percurso.

Mais um surf paradise, Anza fica a 10min de Agadir mas tem uma vibração mais tranquila. Há um tasquinho muito roots para comer uns petiscos, gambinha, tirinhas de choco ou lula, petinga, acompanhado por… chá… Mas depois dá para ir beber café mesmo em frente à praia num café/restaurante muito bom! 

Agadir será provavelmente a principal cidade a Sul do Alto Atlas (isto para não ferir susceptibilidades dos meus amigos Marroquinos que consideram que Agadir é sul, imaginem dizer que Setúbal é a cidade mais importante do Sul, então e tudo o que para baixo é o que? – vá, vão verificar no mapa o que considerariam Norte, centro e Sul), tem um Kasbah muito engraçado no alto da colina, com um vista soberba sobre a cidade e de onde se podem ver tanto nascer como o por do sol. Façam a caminhada até lá acima ou vão de teleférico, mas vão. Agadir tem também o suposto maior souq (só não percebi como se compara isto, Souqs com Souqs ou Souqs com mercados, bazares, etc). Efectivamente é grande e tem muita coisa, mais tranquilo do que Marraquexe, provavelmente o melhor Amlou que podem encontrar.

A caminho de Ouarzazate há um sítio chamado Taliouine ideal para fazer uma pausa na condução e comer qualquer coisa (no Refuge du Toubkal) e visitar mais uma cooperativa, mas desta vez de açafrão que é a principal produção naquela zona.

Ouarzazate é engraçado, começamos a ver estúdios hollywoodescos, monumentos relacionados com a 7ª arte, depois de estar não sei quanto tempo em ambiente desértico encontras uma cidade bem grande no meio do nada cheio de tudo! Aviso: cuidado com os STOP à entrada das rotundas (WTF??), fica a nota.

Merzouga, ai Merzouga, uma coisa estranha, quando no GPS diz que faltam 4 km e vês no horizonte um monte de areia que parece ter sido descarregado em camiões propositadamente ali, mas que depois de meteres os pezinhos lá dizes “F@da-se, esta merda é grande pra c@raças” e depois apercebes-te que é minúsculo comparado com todo o Sahara lá mais para o Sul. Recomendo chegar, descansar num alojamento ali mesmo na vila já com os pés na areia, pernoitar, fazer um tour para ver os flamingos e outras aves no lago ali ao lado, visitar as minas, os montes com fósseis e seguir para passar uma noite no deserto. Se puderem prescindir do conforto e ir para o meio do nada e estar só com as estrelas e umas mantas tuaregues, perfeito. Mais uma vez, se precisarem de contactos, digam.

Já de regresso, fazendo rumo a Marraquexe estão as Gorges du Tohdra e as Pates du Singhes, trilhos altamente recomendáveis no leito dos rios que escorrem do Atlas.

Uma última paragem antes de cruzar o Atlas para Marraquexe, Ait Ben Haddou, um dos locais onde gravaram o Gladiador, Lawrence da Arabia, Game of Thrones, entre muitos outros. Uma fortificação, Kasbah, que recomendo entrarem pela porta do cavalo, atravessem o riacho, caso não esteja seco, e entrem pelo jardim do lado direito e façam o percurso inverso à maioria das pessoas. Imaginem-se nas épocas dos filmes ou mesmo nos filmes e no fim antes da ponte bebam um chazinho.

Atravessar o Atlas é algo que me deixou ainda mais vontade de regressar, para subir o Toubkal, para viver um pouco a vida pacífica do povo da montanha. Tenho a certeza que me vou sentir em casa.

De regresso a Marraquexe, foi escolher o melhor restaurante, beber umas bebidas finas enquanto a lasanha de pato não chegava e depois dar um pezinho de dança.

Marhaba