Um Gato Maltês

Era uma vez… assim começam quase todas as histórias. Como terminam, já depende de cada personagem.

Era princípio de novembro e estavam os meus queridos pais em Marrocos comigo, pela terceira vez. Quase em véspera de irem embora, abriu-se um assunto fundamental para o que estava por vir. O meu pai disse que não queria passar o Natal em casa. Seriam os meus últimos meses em Al Hoceima à frente do Aquário. Eu regressaria a Portugal logo antes do Natal. Onde vamos, onde não vamos? Frio, calor, longe, perto? Entre voos diretos e escalas e após várias simulações, decidimos ir para Malta. No meio do Mediterrâneo, a sul da Sicília, as temperaturas prometiam não ser baixas. No entanto, a expectativa também não era alta.

Pela primeira vez, olhei para Malta com espírito crítico e histórico. Pedi ajuda à minha rede de amigos. O algoritmo e a Siri começaram a sugerir conteúdos sobre Malta. Falei com amigos locais e com outros que lá moraram. Juntos, elaborámos o plano.

Conhecer o Arquipélago

Malta é composta por três ilhas: Malta, Comino e Gozo. Comino está desabitada, mas dizem que vale a pena dar um salto até lá. Tem águas muito cristalinas, tons azuis e falésias calcárias com bastante verde. Parecia uma espécie de Açores do Mediterrâneo.

Em termos históricos, passou muita gente por ali. A própria língua mistura árabe com italiano, francês e inglês. Encontramos muitas igrejas, capelas e fortificações por todo o lado. Decidimos chegar a Malta, passar o Natal, e seguir depois para Gozo. Gozo é bem mais pequena e menos caótica.

Conduzir e Celebrar o Natal

Conduzir em Malta significa guiar no lado errado da estrada. Felizmente, já tinha conduzido na Irlanda e nas Maurícias. As estradas são estreitas e há muito trânsito. A isso juntam-se vias rápidas e múltiplas saídas, mas a viagem correu bem.

Chegámos no dia 23. No dia seguinte celebrámos a nossa famosa consoada. Não fizemos grandes compras e pensámos em ir andando e vendo no que dava. Com a sugestão de uma amiga, fomos para Valetta ver se havia algum restaurante aberto. Estacionámos o carro num sítio tranquilo e caminhámos para o centro. Quanto mais entrávamos na zona histórica, mais gente e barulho encontrávamos. Claro que havia restaurantes abertos. Arranjar mesa é que foi mais difícil, mas conseguimos um lugar numa esplanada coberta com boa comida.

Neste ano optámos por algo diferente. Não houve tradição nem presentes, mas a viagem teve muito significado. O Natal resume-se a estar com quem gostamos e fazermos o que queremos. Essa é a prenda ideal.

Ao contrário de Portugal, em que as famílias se reúnem à mesa no dia 24 e tudo fecha, em Valetta a multidão sai à rua. As pessoas jantam fora e assistem a concertos de Natal. No dia 25, feriado, pensámos que estaria tudo fechado. Estávamos enganados! Um maltês explicou-nos que a maior parte do comércio emprega pessoas que não celebram o Natal. Para eles, é um dia de trabalho normal.

A Calma de Gozo

Estava na hora de visitar outra ilha. Apanhámos o ferry para Gozo. A viagem durou trinta minutos entre Cirkewwa e Mgarr. O navio transporta cento e vinte carros e muita gente. Ficámos surpreendidos com a fila de veículos no porto. Ainda mais surpreendidos ficámos com a organização e a rapidez do serviço. Quatro navios faziam aquele trajeto sem parar.

Chegar a Gozo foi como chegar a casa depois da agitação natalícia. Encontrámos uma ilha tranquila com uma vibração mais baixa e menos confusão. Tudo ficava a uma distância máxima de quinze minutos. Vimos muita natureza mediterrânica, arribas calcárias, grutas, salinas e socalcos. O local é ideal para caminhadas, escalada e mergulho.

Fiz dois mergulhos na costa oeste, em San Lawrenz. Fiquei deslumbrado com mais de quarenta metros de visibilidade. A biodiversidade surpreendeu com animais pequenos e várias espécies interessantes. Gozo proporcionou um slowdown emocional e revigorante. Fizemos corridas matinais e caminhadas com os pais. Também desfrutámos de repastos bem regados e do dolce far niente.

Ficámos em Xlendi, um vale que termina numa baía estreita sem areia. O acesso à água é formidável e come-se bom peixe. Outra especialidade a provar é o coelho, preparado de formas diversas. Curiosamente, não cheguei a ver nenhum no campo.

O Regresso a Malta e a Passagem de Ano

No dia 30 regressámos a Malta. Ficámos numa zona mais central, Rabat, perto de Mdina. Mdina é uma cidade medieval dentro de uma fortificação ao estilo das cruzadas.

Chegou o dia 31. Explorámos o sul e o porto de Marsaxlokk. Comemos uma bela mariscada à maneira deles. A noite de 31 foi brindada por Santa Bárbara e por São Pedro. Eles resolveram molhar a terra para tirar o pó. A nossa guia salvou a situação com latas de atum e wraps.

Arranjar mesa na passagem de ano sem reserva era impossível. Aproveitámos uma brecha no tempo e encontrámos uma esplanada semiaberta. Serviam umas pizzas muito boas. Brindámos à despedida de 2025 antes de irmos para os concertos na praça principal de Valetta. Entrámos com os dois pés em 2026. A praça estava cheia de gente e era impossível saltar com o pé direito. Corremos os bares todos até às cinco da manhã. Depois dessa hora, nem St. Julian’s oferecia um sítio para dançar.

Malta ficou completa quando cumprimos a promessa de visitar um casal amigo. Conheci essas pessoas nos Açores. Eles esclareceram dúvidas, deram dicas e partilharam contactos. Que a vida lhes sorria sempre e que nos encontremos amiúde.

Malta é um país culturalmente interessante. Fica a meio caminho entre a Europa e África. Oferece um clima ameno e voos diretos de Portugal. Combina agitação citadina com paz mediterrânica campestre. Vale a pena conhecer e explorar este destino, de preferência fora dos meses de verão.