Desde que me lembro de ouvir falar em Caminhos de Santiago que sempre achei que um dia haveria de fazer alguma parte desses caminhos, não pela parte religiosa, mas pela parte física e mental. Este ano, logo no início de 2026, depois de terminar o trabalho em Marrocos, decidi que estava na hora, tinha tempo e vontade.
Como ia com mais amigos, o percurso foi escolhido de forma a dar para fazer uma semana de caminhada, mas com um início a que fosse fácil chegar de transporte público. Depois de muita pesquisa, calhou A Coruña, mas não estão a ver o trabalho que deu para encontrar uma combinação ideal para bater certo com os dias que tínhamos e o autocarro do Porto para um destino onde passasse o Camiño.
Janeiro na Galiza não é de todo a melhor altura para o fazer, posso afirmar com conhecimento de facto, o tempo é muito instável, ventoso, chuvoso e desagradável para actividades na rua, mas claro, isso nunca impediu ninguém de nada, querer é poder. E como dizem os nórdicos, não existe mau tempo, existe é mau equipamento e eu acrescento, mau planeamento.
O comboio arrancou do Algarve em direcção ao Porto para uma pernoita e seguir no dia seguinte de autocarro para A Coruña. O alojamento já tinha sido reservado na altura do planeamento, mas foi o único, também não havia grande hipótese de reservas, em praticamente todos os sítios onde ficámos só havia apenas um albergue aberto e sem ninguém hospedado, vá-se lá perceber porquê.
O trajecto faz parte do Caminho Inglês, por onde estes entravam na sua peregrinação. O Caminho Inglês tem 2 inícios possíveis, A Coruña ou Ferrol, que tem mais umas quantas etapas, nós optámos pelo A Coruña – Hospital de Bruma – Sigüeiro – Santiago (75 Km) e depois Santiago – Negreira – Olveiroa – Muxia – Finisterra (117 Km) num total de 192 Km. Uma das razões para ver muito pouca gente neste caminho, é que qualquer peregrinação que chegue a Santiago com menos de 100 Km não dá direito à Compostela, que basicamente é um certificado baseado em carimbos que certificam por onde passaste e que fizeste mais de 100 Km, menos do que isso é apenas um passeio ;-). Como o objectivo não eram os carimbos nem a Compostela, os 75 Km iniciais serviam perfeitamente o propósito. Como nota, sugiro apanhar o caderno oficial do peregrino ou fazer um caderno próprio para o efeito. Colecionar carimbos acaba por ser uma actividade engraçada, desbloqueadora de conversas e claro, uma recordação para o futuro.
A Coruña é uma cidade muito agradável de visitar, situada no extremo noroeste de Espanha, na Galiza. Tem muita oferta gastronómica de alta qualidade, de destacar o polvo e marisco que vêm daquele mar batido que fustiga as rochas, onde se criam os melhores percebes. Ali ganha-se fôlego para o que está por vir. Aquela parte inicial do caminho não é particularmente superinteressante uma vez que grande parte acaba por acompanhar a estrada, no entanto é o início do percurso e o nível de adrenalina anda lá no alto e tudo é uma novidade.
Conheço várias pessoas que fizeram partes do Camiño, outros que todos os anos fazem um bocado do percurso que se tinham comprometido a fazer, uns que foram de bicicleta, outros que não carregaram as mochilas, e todos disseram que havia lojas, farmácias, albergues, supermercados, cafés, etc. Pois lamento, desapontar, neste percurso, depois de A Coruña, e principalmente no inverno (em que a maior parte do pessoal aproveita para tirar férias ou fazer remodelações) está quase tudo fechado. Normalmente havia um café e um albergue por local, mas houve um sítio que nem para o café da manhã ou mesmo almoço houve nada, foi desenrascar com o que havia e caminhar até próximo destino.
A primeira parte do trajecto foi-se fazendo, sempre sozinhos ou acompanhados pela chuva, arco-íris, bocadillos, cafezinho e licor de café, muito típico da Galiza, e alguma natureza. As pessoas que encontrávamos nos cafés por onde passámos, essas sim, eram uma delícia, simpáticas, atenciosas e muito prestáveis. Acabei por virar os 42 num desses dias e reconheço que é bem mais simples do que fazer uma festa com 200 pessoas. Foi um dia diferente, bem passado e com algumas surpresas proporcionadas por quem me acompanhava. Já mais perto de Santiago começaram-se a ver outros peregrinos que vinham de outros caminhos, e fomos conhecendo outras histórias. Há uma que me atirou ao tapete – já em Santiago, no hostel, na conversa normal de peregrino, onde começaste, quando, o rapaz responde que começou dia 2 de Abril de 2025 e que vinha de Genebra, na Suíça (era dia 13 de Janeiro naquele dia, tinha dado para ter um filho) e eu, ah pois isto de inverno pode ser mais complicado com a neve e chuva, usando a máxima nórdica do mau equipamento, ao que ele responde, ah mas eu vim assim – agora imaginem um pullover com uma camisa por baixo e umas calças de bombazine, ok, tudo bem, mas envergava uns sapatos de casamento. Caiu-me tudo, depois disso descalcei as minhas botinhas de caminhada superconfortáveis e fui dormir.
A chegada a Santiago de Compostela foi uma alegria, no sentido de missão cumprida no tempo previsto mesmo no meio da intempérie, só não chegámos na hora de almoço espanhola, mas assim que apanhámos um restaurante aberto vingámo-nos fortemente e acabámos por almoçar um belo polvo à Galega e um pica-pau de novilho às 5 da tarde.
A segunda parte foi brindada com uma tempestade terrível depois de sairmos de Santiago em direcção ao Cabo Finisterra. Houve inclusive uma ponte secundária que ficou semi-submersa e optámos por contornar um terreno agrícola e ir à volta até encontrar outra ponte. Nesse trecho encontrámos um italiano, entre outras pessoas, de quem ficámos bastante amigos, começámos com poucas palavras e como estávamos a fazer o mesmo percurso à mesma velocidade cruzámo-nos várias vezes, até que trocámos mais umas palavras, pois estava prestes a desistir de ir até Finisterra. Foi o pior dia, chuva torrencial desde o início, 8:12, às 14:15 tivemos que parar para trocar de roupa porque o impermeável já deixava passar água nas mangas e no peito, nesse momento metemos conversa com o amigo italiano, o Roberto, e acabámos por fazer o resto do Camiño juntos. Felizmente já perto das 15:00 a chuva parou e o sol resolveu aparecer e tornar as cores desta zona do caminho mais vivas, muito mais integrado na natureza, com montanha e rios. O desvio em Olveiroa para passar em Muxia acho que faz todo o sentido, até porque Muxia é também uma vila à beira-mar plantada, com marina, com boa comida e bastante pacato. O dia seguinte seria a tirada final, mas no segmento anterior com toda aquela chuva a entrar por todo lado acabei por ficar com um início de bolha no pé, que acabou por não passar disso, o que podia ter sido chato.
Os 28 km que separavam Muxia do Cabo Finisterra foram feitos com alguma introspecção sobre o que estava a sentir, porque estava ali em pleno inverno a fazer aquele “passeio”, no entanto havia sempre a preocupação de ver se os outros estavam bem, se precisavam de alguma coisa ou ânimo extra. Gostava de no próximo ano fazer outro percurso, mas desta vez sozinho, para ver qual é a sensação.
E finalmente chegámos ao Cabo Finisterra, muito mais sentido do que chegar a Santiago, mais amassados, sem dúvida, mas mais leves. Com o mar à vista, sol e um gin tónico na mão, todas as dores desvanecem. Um dia completo por ali teria sido um bónus, mas optámos por regressar a Santiago e, claro, jantar como deve ser e celebrar o fim daquela jornada.
Fiz várias coisas que não se devem fazer, usar calçado novo com pouca rodagem nos nossos pés (as botas de caminhada foram compradas 15 dias antes, mas portaram-se lindamente), fazer esforços quando alguma articulação não está boa, e claramente o meu joelho direito não estava bom, mas optei por levar uma joelheira e bálsamo de tigre (o branco) para esfregar antes de começar a caminhar. Funcionou, apesar de ter levado umas belas sovas, com o acumular de km sem dias de recuperação, o joelho acabou por se portar bem.
Bastões (plural) de caminhada, imprescindíveis, mesmo que o caminho seja a direito, meias, cuecas, primeira camada de lã de merino, aquecem o que têm que aquecer, evitam que o corpo esteja em contacto com suor e aguentam mais de 5 dias sem cheiro (mesmo) o que faz com que não tenhas de carregar um montão de roupa. Uma coisa que também é simpática, é que em todos os albergues há máquina de lavar e secar, logo, com duas mudas de roupa podes ir usando e lavando quando for necessário, para evitar peso. Peso, sim o mal dos caminhantes, overpacking (o meu mal, e se acontece isto, ou aquilo, e o outro), que só depois de estar na situação uma vez que se percebe o que é dispensável. Claro que o sítio, a altura do ano e condição física fazem toda a diferença.
Neste caso, um bom casaco e calças impermeáveis, bem como um casaco quente eram também imprescindíveis. Calçado adequado é fundamental, no meu ponto de vista. Ninguém vai para a neve de chinelos, certo?
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